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B - Encarregado de ouvir o vento C - Creio nas miragens D - Creio nas estrelas
E - M de Maria F - Wandarylho G - Olhando no espelho
H - Boa noite, noite J - Dores do Parto L - Outros poemas
M - Feliz tempestade, albatroz! N - Quase Contos P - Pôr do Sol!
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N001 O homem que segurava as estrelas
N002 O último e-mail
N003 Minha mangueira
N004 A poltrona dos sonhos
N005 Flores do campo
N006 Não havia lugar para eles
N007 Os três soldados



 

N006 - NÃO HAVIA LUGAR PARA ELES…


Naquele dia, partiu José com sua Maria. Chegaram de filho no colo buscando o coração da grande cidade. Vieram tirar o documento indispensável e buscar atendimento para o filho que não passava bem. José chegou cedo na fila. Porém, antes da sua vez, chegou a ordem “voltem amanhã, ou melhor, amanhã não, outro dia…” (O dia, por ser aquele, era de só meio expediente).


E agora, José? O que fazer? Essa interrogação era, para o casal, uma fila ainda maior que essa até agora enfrentada. Mas o que se pode fazer? Saúde, o pobre só pode buscar a passo de fila… 


Mas a esperança de José continuava na de Maria e era bem maior que as filas e se perdia de vista onde nem mesmo eles enxergavam. O que não dava para fazer era enfrentar o caminho de volta com o menino naquele estado.


José tirou do bolso um envelope. Havia nele o endereço de um parente que, parece, morava ali perto, no centro da cidade. O táxi demorado não aceitou a corrida. Alegou que o endereço era precário, a letra meio borrada e, sobretudo, porque aquela data era de muito trabalho e havia muita gente esperando, com endereços mais interessantes e claros. 


Enquanto isso, o menino piorava. E, naquela tarde, mais do que seria em outras,era dissonante o choro doído da criança tendo apenas o colo e o carinho da mãe como alívio. Entraram na primeira farmácia do caminho. O farmacêutico, por ser aquele dia, não cobrou nada. Deu um comprimido e um conselho: levar o menino no médico! O hospital até que não era longe. Distância mesmo é a que existia entre a sala de espera e o consultório do senhor doutor. Além da falta do documento necessário, o médico já fizera seu horário. E, ao menos hoje, era justo folgar mais cedo. 


A criança já perdera até a força de chorar. Ali, no banco da praça, já era tarde e tudo parecia perdido. Contudo, nesta noite diferente, as esperanças do casal se acenderam de novo, junto com as muitas luzes que enfeitavam a cidade. ( Nesta noite, as luzes faziam mais que iluminar).


Enquanto Maria esperava ao relento, perto dela, aumentava o número de carros que estacionavam vazios e lacrados. Num deles, entretanto, havia duas pessoas. José bateu-lhes à porta. O motorista custou para baixar o vidro. José explicou sua situação. A mulher, ao lado do motorista, desligou o rádio, ouviu o choro da criança no colo da mãe e falou baixinho no ouvido do marido. O homem pediu que os três entrassem no banco de trás. Depois de bastante rodar, deixou-os na porta de um albergue. Se pudessem, eles mesmos acolheriam os três. Mas estavam indo para a igreja e não queriam chegar atrasados. Partiram contentes consigo mesmos depois deste gesto de caridade. É verdade que melhor teria sido dar uma assistência mais concreta ao casal e filho. Mas se a gente for se ocupar de todos esses casos… E sabe lá quem é e de onde veio esse pessoal…Além do mais, a sociedade tem instituições para atender esses coitados. 


José apertou a campainha da porta do albergue. E esperou. Esperou apesar de ser o único da fila. Então, veio um senhor de guardanapo na mão. Um senhor que, antes de abrir a porta, abriu a boca para reclamar que “nem hoje, que é hoje, teria um jantar sossegado”. José explicou tudo de novo. Suplicou. Rezou ao homem como se fosse ele o seu Deus. Mas ele nem fez questão de ouvir. Apenas acendeu a luz geral e mostrou como o recinto já estava lotado. Realmente, não mais cabiam outros josés e marias. E, além do mais, o homem do albergue insistiu: o menino não era caso de hospedagem e, sim, de hospital. Caso de emergência. Mas se o albergue fosse tamanho do coração daquele homem de guardanapo na mão, haveria também lugar para eles e ninguém, que precisasse, ficaria de fora.


Nos olhos de Maria começaram a brotar as lágrimas que o filho não tinha mais para chorar. E José, que já não sabia mais o que fazer, nem o que pensar e dizer, sofria a dor da mãe e a do menino. O pobre filho nos olhos do pai e no colo da mãe… E os três, desamparados. Desamparados não por falta de documento, de médico, de hospital, de farmácia, de táxis ou de pessoas com bom coração…


Numa cidade, há tantas portas! Nesta noite, sobretudo, portas e janelas acesas por todos os lados. Mas não basta dar um pratinho de doces, um conselho ou sugestão. Há portas que, depois de abertas, permanecem tão cegas quanto antes, chaveadas. Com elas, ao mesmo tempo, é preciso abrir o coração. E era isso que José e Maria precisavam: um coração que tivesse mãos e fizesse pelo menino, o que eles mesmos, como pais, se pudessem, fariam. 


O homem de guardanapo na mão ainda não havia entrado quando chegou até eles a luz da porta de uma casa vizinha que se abria. E, no caminho que a luz fizera, chegou a sombra grávida de uma senhora. Desta vez, José não precisou explicar sua situação, pois, já foi dito, era uma gestante. A mulher fez o marido acordar um vizinho importante, dono de um carro. E fez o dono do carro chegar depressa ao pronto-socorro. E depois, fez com que a importância do dono do carro conseguisse a imediata internação da criança.


O doutor de plantão resmungou: “não sei por que trazem os doentes só em último caso…” E, doutor que era, repreendeu o descuido dos pais. Depois avisou: o caso era grave. Muito grave. 


Na sala de espera, a mulher grávida e o casal, enfrentavam agora uma nova fila. A fila da esperança. A espera de uma melhora. E já era muito noite quando o médico voltou e anunciou a boa nova: o menino reagira bem, estava fora de perigo…nascera de novo!

A senhora grávida sentiu-se mãe antes mesmo de dar à luz. Chorou de alegria e, antes de voltar para casa, desejou a todos feliz madrugada de Natal.



 
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