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B - Encarregado de ouvir o vento C - Creio nas miragens D - Creio nas estrelas
E - M de Maria F - Wandarylho G - Olhando no espelho
H - Boa noite, noite J - Dores do Parto L - Outros poemas
M - Feliz tempestade, albatroz! N - Quase Contos P - Pôr do Sol!
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N001 O homem que segurava as estrelas
N002 O último e-mail
N003 Minha mangueira
N004 A poltrona dos sonhos
N005 Flores do campo
N006 Não havia lugar para eles
N007 Os três soldados



N004 - A poltrona dos sonhos

 Se havia alguém de quem aquele menino gostava era do seu avô. Passava horas com ele. Ouvia e perguntava. O velho era um tipo franzino, judiado pela idade e pelas intempéries da vida. Raramente saía. Doente das pernas, passava a maior parte do tempo sentado num banco de madeira que ficava ao lado da porta da cozinha. O menino chegava, pedia bênção e puxava prosa. Feito abelha na flor, gostava também ele de rodear o avô. Nunca falou alto, mas tinha um sonho: comprar uma daquelas poltronas estofadas, macias e reclináveis que ele viu na televisão para dar de presente ao avô. O velho magricelo e alquebrado, agora no fim da vida, merecia bem mais que um banquinho de madeira dura.

Mas ele mesmo não tinha ganho e a família passava com o dinheiro contado para as despesas de cada mês. Chegou a jogar diversas vezes na loteria e até fez a promessa de que, se ganhasse, compraria uma poltrona igual para cada velho da redondeza.

Um dia o avô se foi. Mas o sonho de ter uma poltrona, como aquela mostrada na televisão, sobreviveu. Quando fosse grande, e ganhasse bem, seria a primeira coisa que compraria. E a daria de presente a si mesmo…

O menino virou homem, se casou. Comprou os móveis indispensáveis, mas não pode se dar ao luxo de comprar a supérflua poltrona. Prometeu a si mesmo que a compraria quando chegasse o herdeiro. O sonho agora era chegar do serviço, acomodar-se na poltrona macia e, ali, ninar o filho. Isso sim seria vida… Mas quanta despesa dá uma criança…não havia dinheiro que chegasse. A poltrona esperaria…Quem sabe no final do ano…Mas o décimo terceiro salário foi gasto antes de chegar… O desejo de comprar uma bela poltrona daquelas reclináveis, onde pudesse ver televisão, ou olhar para fora da varanda, não se calava. Porém, as despesas com os estudos do filho, o aluguel, o gasto no mercado e a conta da farmácia falavam mais alto.

O tempo foi passando e aquele menino também ficou velho. De labutar não parou. Fazia bicos, empreitava serviços nos finais de semana, mas precisava ajudar o filho que, logo, estava se casando e ajeitando a vida. Quando se aposentasse, aí sim, compraria a sua poltrona e daria a si mesmo o que tanto desejou para o seu saudoso avô. Mas ficar velho custa caro. Os remédios dele e da patroa não deixavam. A saúde vinha antes. A poltrona ficou para depois…Quem sabe um dia seu filho teria uma?



 
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