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B - Encarregado de ouvir o vento C - Creio nas miragens D - Creio nas estrelas
E - M de Maria F - Wandarylho G - Olhando no espelho
H - Boa noite, noite J - Dores do Parto L - Outros poemas
M - Feliz tempestade, albatroz! N - Quase Contos P - Pôr do Sol!
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N001 O homem que segurava as estrelas
N002 O último e-mail
N003 Minha mangueira
N004 A poltrona dos sonhos
N005 Flores do campo
N006 Não havia lugar para eles
N007 Os três soldados



N003 - Minha mangueira

Ganhei aquela muda de mangueira de um amigo. Ele a trouxe dentro de um vaso. Plantei-a no dia seguinte no pomar do sítio. Meu filho me ajudou. Escolhemos um lugar especial, fizemos um buraco e a cobrimos com terra boa, esterco bem curtido, limpamos o mato em volta. Ali estava, enfim, aquela pequena planta que, apesar de seu talinho fino, prometia ser uma grande árvore e produzir a doçura de muitos frutos.

Dei-lhe tempo e cuidados. Protegi-a contra a fome dos cabritos e outras pragas. Quase todos os dias, no final da tarde, eu a visitava. Ela crescia, crescia. Dois ou três anos depois, estava maior que eu com meus braços erguidos. Antes disso, porém, começaram as cobranças. “Ela ainda não deu frutas?…” “Já devia ter dado algumas…” “ Tem pé que já frutifica no primeiro ano…”

A minha mangueira continuava lá, verdinha, bonita. Na primavera soltava algumas flores que, no entanto, não vingavam. O tempo foi passando. E ela crescendo mais. Tornou-se uma bonita árvore que dava sombra para a família e galhos para os ninhos de passarinhos. Mas manga que é bom, nada…

Meu vizinho me visitou um dia e me aconselhou a simplesmente cortá-la. Mangueira que não dá manga merece mesmo é machado, falou ele. Fui contra. Aquela árvore era mais que uma mangueira. Era minha. O vizinho não sabia  o que era isso…Vamos esperar o próximo ano…quem sabe? Mandei fazer análise da terra outra vez. Apliquei o adubo recomendado pelo agrônomo. Corrigi e enriqueci o solo à sua volta, no rodado de sua saia.

No ano seguinte, tudo igual. A mangueira floresceu, porém as flores deram em nada. Mas eu ainda não desisti dela. Já era a maior árvore do pomar. Propus-me a lhe dar um tratamento especial. Todos os dias, exceto quando chovia, eu lhe dava bons litros de água. Alguém me falou que uns bons golpes de facão no tronco resolveria o problema, com certeza. Fiz isso com dor no coração, mas fiz.

No ano seguinte, a frondosa mangueira, apesar de tudo, ainda não respondeu. Produziu, sim, algumas manguinhas mirradas que apodreceram antes mesmo de amadurecer. Meu vizinho insistiu: “ Mangueira quando vem com defeito não tem jeito…aproveite sua lenha. Ao menos para isso deve servir…” 

Aquela bendita árvore estava tomando meu tempo e ocupando um precioso espaço no pomar. Tomando o lugar de outras que eu bem poderia plantar. Quase concordei com meu vizinho. Mas perdoei minha mangueira mais uma vez. Dei-lhe nova chance. Mas no ano que vem, ameacei,se não houvesse frutos, eu a cortaria de vez. Afinal de contas, paciência tem limite. E, apesar do sentimento, a gente precisa agir com a razão. Era apenas uma árvore…

Nos dias seguintes, conversei com ela, igual minha mãe fazia com as roseiras dela. Abracei-a em silêncio, imitando uma amiga panteísta. Por que minha querida mangueira não me dava mangas? Não me lembro de um caso como este. Ao contrário, já vi tantas mangueiras com os galhos arcados até o chão pelo peso de tantas frutas. Mangueiras, à vezes, sem dono, abandonadas e esquecidas no meio do pasto ou dos caminhos…Mangueiras que dão frutas a todos, sem perguntar se mereciam ou não, se haviam cuidado delas ou não. Por que minha mangueira não frutificava?

O ano seguinte chegou. As mangas, não! Liguei a motosserra. Encostei-a no tronco daquela árvore…mas me lembrei que eu era mais velho que ela…e que frutos, eu, eu, havia dado à sociedade? Na minha empresa, fui firme e cortei funcionários improdutivos. Sempre cobrei dos outros bons resultados. Mas, a verdade é que comigo mesmo, eu sempre fui compassivo. Que tipo de mangueira era eu? Guardei a motosserra.

Os anos se passaram. Eu já nem conferia mais se a mangueira florescia ou não. Nem mais passava perto dela. Parece que, aos poucos, ela foi deixando de ser minha.Era uma árvore grande lá no pomar, mas, na minha vida, ia diminuindo e ocupando menos espaço dentro de mim.Era essa indiferença que eu queria mostrar àquela mangueira, mas na verdade, resistia em mim, a esperança de um milagre…

Um belo dia, chegando de uma demorada viagem, me deparo com aquela mangueira carregadinha de mangas! Imaginem… Frutas sadias, abundantes e madurinhas…Em nenhum lugar do mundo eu havia visto um espetáculo assim tão belo…Fiz questão de chupar muitas mangas, lambuzar a boca e a cara, tirei o atraso de todos este anos passados. Depois dei um demorado abraço na minha mangueira, acariciei sua folhas, beijei seus galhos. Valeu a pena esperar, esperar e perdoar mais do que devia. Sem isso, eu jamais saberia o quanto minhas mangas eram doces…



 
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