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B - Encarregado de ouvir o vento C - Creio nas miragens D - Creio nas estrelas
E - M de Maria F - Wandarylho G - Olhando no espelho
H - Boa noite, noite J - Dores do Parto L - Outros poemas
M - Feliz tempestade, albatroz! N - Quase Contos P - Pôr do Sol!
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N001 O homem que segurava as estrelas
N002 O último e-mail
N003 Minha mangueira
N004 A poltrona dos sonhos
N005 Flores do campo
N006 Não havia lugar para eles
N007 Os três soldados



 

N002 - O último e-mail

 Era um moço que não deu certo. Por culpa de seu sonho, vivera sem perceber o chão que seus pés pisavam. Vivia nas nuvens, é o que a família dizia. Rapaz quase sempre calado. Mas quando o assunto era ela, tornava-se inesgotável. Eu o conheci ainda menino. Tornei-me seu melhor amigo por haver aceito, certo dia, levar um recado dele àquela menina que sentava na primeira fila e era sempre a primeira da classe. Num gesto ousado, ele a convidara para ser da sua equipe. Nem me lembro o que ela respondeu. Nesta época, já me falava dela. E falava com água na boca como fosse ela o melhor doce que havia no mundo.  

Era fácil resumir sua vida e contá-la em poucas palavras. Ele a amara. Ponto. Em tudo que fez, ela foi o centro, o motivo e causa. A escola era um lugar aonde ele ia para poder vê-la. Depois arranjou aquele trabalho na padaria para poder atendê-la quase todos os dias. Na faculdade, entrou para o Diretório Acadêmico só porque, ela, que era da Diretoria, pediu-lhe ajuda para divulgação de um evento estudantil. O tempo todo era ela que ele respirava e vivia. Mais de uma vez eu o aconselhei. Amor é amor, isso é doença. Insisti para que olhasse para os outros lados. Havia outras meninas na cidade. Geralmente, nestas ocasiões, ele me ouvia calado, talvez pensando nela. Numa dessas vezes, (nunca me esqueço disso), me olhou nos olhos e falou: —- Se você não me compreende é porque nunca amou alguém. 

A vida é para ser vivida da melhor maneira possível. Mas seremos tão livres a ponto de decidir como ela será gasta? Alguns fazem tudo certo e se tornam pessoas de sucesso. Outros consomem seus dias na febre de uma grande e incontrolável paixão. Jogam fora suas chances, seus bens e, se necessário, de bom grado, escolhem a dor. Mas, seremos livres a ponto de decidir o que fazer da vida que nos é dada? A resposta eu não sei. O que sei mesmo é que meu amigo apaixonado nunca perdeu tempo com esta pergunta. 

Hoje procuro me lembrar de quando estiveram juntos pela primeira vez. Ela era uma daquelas na lista das pessoas que fazem tudo certo e se dão bem na vida. O único atributo dele é que ele a amava. Só isso fizera na sua vida breve. E ela, assim como eu, talvez ainda não soubesse o que isso significava. Ela, mesmo sendo, ainda não sabia o que era ser a vida de alguém. Aliás, as pessoas muito amadas, geralmente, são egocêntricas, acomodadas e distraídas. 

Lembro-me daquele dia. Telefonou-me para ir ao hospital levando o computador. Fui. Conhecia seu drama. Há tempos definhava. Nascera com um problema congênito no coração. Os médicos apontavam um transplante como solução. Ele sempre recusou. Preferia a morte. A caminho do hospital fiquei curioso. Por que o computador?  

Cheguei. Seu estado era lastimável. Tivera uma complicação séria. Vivia seus últimos dias, talvez seus derradeiros momentos. Animou-se quando me viu.

—– Conecte-se, foi a primeira coisa que me falou. Enquanto ligava o computador, ele, com voz sumida, me explicou: Enviei um e-mail para ela e pedi que me responda, com sinceridade, se me amou de verdade. Veja lá se respondeu. E me passou sua senha. 

Acessei sua caixa de entrada e lá estava a resposta dela. Porém, não quis que eu a abrisse. Insistiu para que eu a deixasse assim, por abrir, na tela, bem na sua frente. Perguntou-me o que eu achava. Ela, sempre sincera, responderia que o amava? Lembrei-lhe que a resposta poderia vir num clic. Mas ele, definitivamente, não quis. Disse-me que, naquele momento, a possibilidade de ela ter-lhe respondido sim era tudo o que ele tinha na vida. A mensagem dela, ainda não aberta, ele a podia ler como quisesse. Era uma semente. E ele tinha o direito de imaginar, saindo desta semente, a árvore que ele desejasse. 

Voltei para casa, à noite, deixando sobre o móvel de cabeceira, o computador conectado, a mensagem por abrir na tela voltada para o meu amigo que, deitado de lado, não tirava os olhos dela. O horário de visitas terminou. Deixei-o ali, entre moribundo e absorto. 

No dia seguinte, bem cedo, voltei ao seu quarto. Lá estava ele na mesma posição. Entre seus dedos gelados e enrijecidos, o mouse. Na tela, a resposta sem abrir. E assim ficou. Eu mesmo a deletei. Antes de partir, ele me ensinou que a esperança vale mais que a verdade.


 

 
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