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B - Encarregado de ouvir o vento C - Creio nas miragens D - Creio nas estrelas
E - M de Maria F - Wandarylho G - Olhando no espelho
H - Boa noite, noite J - Dores do Parto L - Outros poemas
M - Feliz tempestade, albatroz! N - Quase Contos P - Pôr do Sol!
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N001 O homem que segurava as estrelas
N002 O último e-mail
N003 Minha mangueira
N004 A poltrona dos sonhos
N005 Flores do campo
N006 Não havia lugar para eles
N007 Os três soldados



 

N001 - O homem que segurava as estrelas 

Na sua humilde aldeia todos o conheciam. Era um homem de estatura média e franzino. Mas seu ministério o engrandecia. Nascera encarregado de segurar as estrelas no espaço. Isso mesmo! Durante o dia, dormia no seu rancho. Mas, à tarde, antes do por do sol, ele já estava no seu posto. Sua função era segurar as estrelas para que elas do céu não caíssem. Todo mundo sabia que as estrelas só permanecem, no alto, sustentadas pelo olhar de alguém. Sem isso, elas desabam. Ninguém ousava duvidar. Isso aprenderam dos pais e, na história da tribo, sempre houve uma pessoa especialmente designada para olhar atentamente o céu estrelado e não permitir que elas caíssem. 

Recebera do povo esse encargo e fazia com gosto sua tarefa porque, ao fazê-la, prestava um serviço aos moradores de sua aldeia. Com os olhos, segurava as estrelas. Sentia orgulho de seu trabalho. Todos reconheciam sua importância. Se falhasse, fatalmente choveria estrelas. Sem as estrelas, a noite não seria mais a mesma e, com elas espalhadas  sobre a terra, não haveria mais onde pisar, onde plantar, onde viver. 

Por isso, nosso homem franzino, à noite, nem conversava. Olhava atento o universo e quando, por sua distração, uma caísse, ele, com os olhos, a amparava ou a desviava e impedia que viesse ao solo. Para ele, a noite era sempre uma insônia de muitas horas. E, nestas horas, contemplava e examinava, com carinho, estrela por estrela. E, acordado, sonhava com cada uma delas. Eram distintas no brilho e na cor, mas igualmente belas.  

Uma noite, entretanto, encontrou uma diferente de todas. Sua luz… Não sabia dizer nem explicar. Nem precisava. Aos poucos, neste céu, que é o plural de estrelas, ela se tornou, para ele, a única a brilhar. Deu-lhe um nome próprio e a chamou de Singular. De repente, só tinha olhos para ela. Era como se as demais estivessem dormindo ou apagadas. Por isso, reuniu o conselho da aldeia e pediu demissão do cargo. É que já não conseguia cuidar das demais. Para ele, existia uma só ovelha e não mais um rebanho. Mas o conselho dos sábios disse não. O cargo era vitalício. Não era ofício. Era missão. 

Voltando ao trabalho de fixar, com os olhos, as estrelas nas galáxias, o homem franzino, cegado pela paixão, desejou que sua estrela viesse até ele, no seu colo, mesmo que, com isso, as demais, todas, despencassem e viessem ao solo. E foi tão grande seu desejo que fechou os olhos e, com eles bem fechados, esperou o céu desabar. Mas nada aconteceu e, quando abriu de novo os olhos, as estrelas estavam lá. Inclusive a Singular. O que desabou mesmo foi o seu mundo, seu universo. Perdera a vida, gastara seu tempo com um afazer inútil. De nada valera cuidar tanto, sem piscar, acreditando que, desta forma, firmava as estrelas no infinito. As estrelas não dependiam dele para estarem lá brilhando. 

Calado, o homem franzino, não comentou nada com ninguém. Guardou o segredo para si mesmo. Continuou a olhar as estrelas, não mais preocupado em segurá-las com seu olhar. A dor de ter perdido tanto tempo na vida era compensada pelo alívio de não ter mais tanta responsabilidade. Agora, só ele sabia que as estrelas do céu não mais dependiam dele. Aliás, nunca dependeram. O que o mantinha no seu posto era o prazer de contemplar, a noite inteira, a sua estrela. Sem prejuízo de ninguém, ele podia permitir que ela fosse a única no céu. Aprendeu que, só de longe, as estrelas ficam perto. E, mesmo que a gente feche os olhos e queira, elas não caem nem descem, mas continuam fora do nosso alcance.  

A vida do homem franzino na aldeia, agora amante de uma estrela e dono de um segredo, já não seria mais a mesma. A sustentação do céu estrelado não dependia mais dele. Ao contrário. Ele, e seus iguais, é que dependiam das estrelas. Elas passam a vida inteira acordadas sustentando os sonhos dos humanos. Sem elas, nós desabaríamos e caíramos no nada. O que nos segura, e nos cola no céu da Terra, é o brilho das estrelas e não a força da gravidade.*



 
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